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Mesmo com nas noites frias gosto de deixar as janelas abertas de par em par. É assim nos meses de Inverno. Não vejo razão para que seja diferente em Maio. Mesmo sendo um Maio como este. Fresco, chuvoso e agitado pelos caprichos da ventania. Aliás, agora me dou conta que Maio já vai quase no final. Não é absolutamente espantoso como um mês passa a voar?!… Não parece, mas o tempo passa bem mais depressa do que se julga.

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Entrou uma mosca, na casa. Uma mosca varejeira, dessas que abomino e me bolem com os nervos a cada vassourar de asas. O primeiro impulso é escorraçá-la, mas está tonta demais para acompanhar a direcção para onde o suplemento de cultura do jornal de sexta-feira a enxota. Um qualquer rídiculo no meu esbracejar vão me faz desistir da varejeira. Deixá-la! Que saia quando quiser por onde entrou. Mas aquele ruído de corpo electrocutado que faz sempre que se desloca no ar, tira-me do sério. Não consigo sequer concentrar-me no nada. Só aquele rumor irritante de vôo em desnorteio que me perturba e incomoda. E, se primeiro venço esse instinto de a esmagar ao primeiro círculo mais próximo, depois sinto-o ressurgir como um imperativo gritante ao sossego. Torno a enrolar o suplemento na mão. Chego mesmo a pôr-me de pé. Mas depois fico a ver-lhe a asa tonta e triste, os volteios cambaleantes e o desprezo imobiliza-me o gesto. Desisto de lhe abençoar o desvario com uma abrupta morte certa que lhe ponha fim ao desnorte em tropeção que a atira contra as paredes e as vidraças, mesmo tendo as janelas abertas de par em par a facilitar-lhe a saída para a liberdade da noite lá fora. Desisto, eu confesso. Porque vê-la assim, obcecada e totalmente sorvida por tudo quanto reluz, incapaz de se soltar do fascínio que a atrai na direcção fatal das lâmpadas, me causa um súbito dó. Um dó de que tomo consciência, no exacto momento em que olho a varejeira e dou comigo a lembrar-me de muito boa gente que conheço. Igual. Igualzinha, a varejeira: a voar em círculos e aos tombos, a embater contra tudo, totalmente desorientada no rumo e sem qualquer direcção, mesmo não parando quieta um só segundo. E desisto de mover um dedo para, numa sapatada, acabar com o incomodo que me causa. Em vez disso, calço a primeira coisa que me aparece, visto um casaco, meto algumas moedas no bolso e saio para comprar cigarros antes que o café da esquina feche. Sei que, entretanto, quando eu decidir voltar para casa ela já lá não estará. Já vai ter saído, eu sei. E senão sair, há-de acabar por morrer, eu sei. Se não sair, vai acabar por se acabar e morrer, tenho a certeza. Mais tarde ou mais cedo. Nem vale a pena apostar. Pois se acontece com as pessoas!…

Alguém me liga a perguntar se já tenho alguma noção para o dia de hoje. A pergunta é estranha, eu sei. Assim vista de fora e tão de repente, admito que até pode parecer assustadora e, se nos desviarmos uns quantos graus, por outro prisma e sob um outro ângulo ainda, pode mesmo parecer colossal e assustadora. Mas não é. É uma simples pergunta de trabalho, dessas que temos por hábito e necessidade fazer, para ver se produzimos alguma coisa de interessante com as horas que nos ficam.

Em todo o caso, confesso que hoje hesito um pouco. Para responder com propriedade precisava aqui de resolver qual é o meu palpite mais acertado: se o que me diz que, até ao fim do dia, muitas pessoas se hão-de estranhamente eclipsar da face da Terra; ou se, pelo contrário, o que me diz que pode ser que o horizonte tenha acordado fadado a encontrá-las todas ao mesmo tempo.

Não sei bem em que é que ficamos. “A ver vamos!…“, como o povo gosta de dizer. Cá estaremos para ver, já que, naquilo que nos toca, não temos mesmo outro remédio.

Nunca entendi muito bem a coerência de certas divisões. Bem vistas as coisas, nem sequer discordo com o princípio divisor a que fomos chegando por eliminação, bom senso, tentativas e erros ou, simplesmente, maioria de razão. Acho, aliás, que tudo na vida devia seguir a mesma lógica das canalizações: da porta da rua para dentro, passam a ser coisa nossa que a mais ninguém diz respeito. Só não entendo porque é que o mesmo não se aplica a tudo o resto. Convém, pois esclarecer: não é o princípio acordado que me incomoda, é o desacordo na coerência da sua aplicação.

Posto isto, o resto da tarde fica para encontrar um canalizador que rapidamente trave a inundação que alagou o banheiro e me proporciona, desde madrugada, um lago no lugar do chão onde antes havia uma ilha em forma de tapete.

Sempre que alguém me pressiona, tendo a lembrar-me de um par de versos do Cazuza que são suficientes para me manter o prumo e poupar a grandes angústias, por tudo o que deixo em falta e a que nem me sinto tentada a tentar lançar mão: “Ouça-me bem, Amor“, ele escrevia. “Preste atenção, o Mundo é um moínho / vai reduzir às ilusões a pó“. Mantinha-se firme no alerta, Cazuza: “Preste atenção, Querida / embora saiba que estás resolvida / em cada esquina cai um pouco a tua vida / e em pouco tempo não serás mais o que és“. E para o caso de ainda restarem dúvidas, lá seguia ele, incansável no aviso: “Preste atenção, o Mundo é um moínho / vai reduzir às ilusões a pó“, explicando com todas as letras, para quem quisesse dar-se à fineza de o escutar: “quando notares, estás à beira do abismo / abismo que cavaste com teus pés“.

Não disponho, portanto, de grande segredo, nesta coisa de travar o Mundo nas suas cegas vertigens compulsivas, com que a cada momento tenta atolar-nos na argamassa espessa que constantemente produz e lhe sai das entranhas. Mas perguntam-me muito e muitas vezes e, só por isso, de vez em quando lá me pergunto eu própria a mim também. Palavra que tento e me esforço à resposta, mas por mais que pense e a procure, não encontro na minha posse nenhuma manha menos óbvia. Assim sendo, sou levada a crer que talvez não seja manha, mas uma certa arte, como esta de ter a fineza de ir escutando os artistas e cantarolando para com os meus botões uma qualquer canção sua, que a vida instintivamente me evoque ao passo.

Hoje apeteceu-me seriamente escrever. E apeteceu-me tanto e tão fundo que a ocasião me aconteceu quase como uma homilía, apesar das páginas dos jornais guardarem muito pouco lugar ao especialíssimo instante dessa reverência que a escrita pede e urge ser. Foi então que percebi que, por qualquer razão que desconheço, mas a que sou grata, ensurdeci subitamente e sem aviso, para esse frenesim que de quando em onde se afobava à minha volta, nesse ansioso alinhavo de interjeicções por onde a pressa acha de gritar quando se quer fazer ouvir e continuar a parecer discreta, por se tratar de vir lembrar a implacável compressão dos rolos e das impressoras, que nas alturas sacras se esquecem. Tornei-me quase eu, quase grata por trabalhar e o meu trabalho ser este e ser assim, quase grata por ter um número de segurança social e descontar impostos ao fim do mês. Mas não disse nada porque não me pareceu valer a pena. E também não vou explicar-me agora muito além, porque não creio que me consiga fazer entender tão claramente como me sinto. Hoje. Aqui. Só porque seriamente me aconteceu apetecer escrever e escrevi.

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copyright © Maggie C. 2007

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